Macron diz que Estamos em guerra, após anunciar o confinamento na França

País suspende reforma da Previdência e o segundo turno das eleições municipais por causa da epidemia de coronavírus

PARIS —  O presidente francês, Emmanuel Macron, decretou a interdição de qualquer deslocamento ou reunião dos cidadãos em território nacional a partir desta terça-feira ao meio-dia, e por 15 dias, sob o risco de sanções a quem não obedecer a regra por conta do avanço do novo coronavírus no país.

Também a partir da mesma data e horário, as fronteiras da União Europeia (UE) e do Espaço Schengen, formado por 26 países em que a circulação de pessoas é livre, serão fechadas. Todas as viagens entre países europeus serão suspensas.

—  Estamos em guerra — repetiu Macron diversas vezes, ao longo de seu discurso em cadeia nacional. É uma guerra sanitária. Não lutamos nem contra um Exército ou uma nação. Mas inimigo está aí, invisível, em progressão, e isso requer toda a nossa mobilização geral.

Macron disse que  “todas as ações do governo e do Parlamento devem agora ser voltadas para o combate à epidemia, dia e noite”. Devido a isso, a reforma da Previdência, principal ponto da agenda do presidente, está suspensa. O segundo turno das eleições municipais que começaram no domingo também foi indefinidamente adiado.

— Nada deve mudar nossa direção. Por isso, decidi que todas as reformas em andamento seriam suspensas, começando com a reforma da Previdência.

Macron anunciou também, sem detalhar, que o envio das faturas de eletricidade, água e gás estão suspensas. Segundo o presidente, “os que enfrentam dificuldades não terão nada a pagar, nem impostos nem contribuições para a Previdência social; contas de gás ou eletricidade e aluguéis devem ser suspensos”.

Somente os deslocamentos estritamente necessários serão permitidos, sob controle das forças de segurança. Após ter ordenado, na sexta-feira, o fechamento de escolas, universidades, creches, restaurantes, bares, cinemas e todo comércio não alimentar, exceto as farmácias, o líder francês, diante do agravamento da situação e da desobediência da quarentena por parte da população, impôs mais rigor à estratégia do governo de combate ao coronavírus, em um confinamento jamais adotado pelo país em tempos de paz.

Eleições em suspenso

Depois da realização já contestada do primeiro turno das eleições municipais, mantida por Macron em nome da “vida democrática”, a suspensão do segundo turno, previsto para o próximo domingo, era esperada e reclamada por líderes políticos e o corpo médico.

O primeiro-ministro, Edouard Philippe, propôs aos partidos políticos que o sufrágio ocorra em 21 de junho. Além de incompatível com o contexto de crise do coronavírus, o pleito do último domingo registrou um índice recorde de abstenção, de 55,36% — ou seja, 44,64 % de participação —, apesar de todas as medidas sanitárias adotadas.

— Não devemos, exceto para as populações frágeis, modificar nossas hábitos de sair — dissera o presidente no último dia 6, quando a epidemia ainda estava em seu início na França.

 De lá para cá, o quadro mudou no país e na Europa. O diretor geral da Saúde do país, Jérôme Salomon, alertou para uma situação “muito inquietante”, que “se deteriora muito rapidamente”, com uma duplicação dos casos de contaminação a cada 72 horas.

O número dois do Ministério da Saúde anunciou que 5 mil leitos de reanimação e outros 7.364 de cuidados intensivos estariam disponíveis no país, mas prevê que esta capacidade poderia se revelar insuficiente.

Paris fecha parques

O último balanço oficial anuncia 6.630 casos de contaminação e 148 mortes. O Conselho Científico, grupo de dez especialistas criado desde o dia 11 por ordem do presidente da República, estimou confidencialmente, segundo o jornal “Le Monde”, que sem a adoção de nenhuma medida preventiva e sustentando-se nas hipóteses de transmissão e mortalidade mais elevadas, o coronavírus seria capaz de provocar de 300 mil a 500 mil mortes na França.

A prefeita de Paris, Anne Hidalgo, não esperou o anúncio das novas medidas pelo Palácio do Eliseu para decretar o fechamento de parques e jardins da capital francesa, sem precisar o prazo de duração.

As imagens de um expressivo número de parisienses nas ruas no último domingo, aproveitando o dia de sol neste final de inverno europeu, chocaram as autoridades e médicos.

A prefeitura tornou ainda gratuito o estacionamento nas ruas da cidade, para facilitar os deslocamentos das pessoas mobilizadas na gestão da crise, e prometeu colocar à disposição 500 mil máscaras de proteção a médicos e enfermeiros.

Prevendo o quadro mais restritivo, os franceses correram esta tarde para os supermercados, formando longas filas e esvaziando as prateleiras, principalmente, de cereais e massas. O governo solicitou calma à população, e garantiu que a cadeia de provisão alimentar não será interrompida e que não haverá problemas de estoque.

Via O Globo

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