Covid-19 nas favelas e a naturalização dos riscos

Desde que o novo coronavírus chegou ao Brasil, especialistas manifestaram preocupação com as favelas devido a questão da alta densidade demográfica dessas regiões e pela ausência de serviços adequados de saneamento básico. A precariedade dos serviços de infraestrutura nas comunidades virou um agravante para propagação da Covid-19, tornando o território de favela um dos principais focos da doença no Rio de Janeiro.

O isolamento social, adotado como principal medida preventiva para evitar a epidemia, revelou-se insuficiente para as favelas pelos problemas habitacionais que os seus moradores estão condicionados socialmente. Junto com o adensamento territorial, as moradias insalubres propiciam as circunstâncias oportunas para a proliferação de doenças respiratórias – muitas das vezes, com mais de uma família vivendo num mesmo casebre. É preciso considerar que muitos dos trabalhadores dos serviços classificados como essenciais estão dentro dessa realidade – sem condições de cumprirem as medidas restritivas orientadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Outros pontos importantes foram levantados em debates acerca das favelas em meio a pandemia, como a falta de abastecimento de água potável nas periferias que dificulta o cumprimento das recomendações preventivas. Com tudo isso, outra questão foi colocada em pauta como causa responsável da propagação da epidemia nas favelas. É recorrente a circulação de imagens de pessoas tentando retomar a normalidade em áreas periféricas, sempre acompanhadas de críticas por não cumprirem as medidas recomendadas para o isolamento social. São denúncias que vão desde a falta do uso de máscara até a abertura e aglomeração nos comércios locais.

Normalmente, essas críticas são desprovidas de uma reflexão mais aprofundada, simplesmente taxando de irresponsável quem não cumpre tais orientações. Primeiramente é preciso entender que a renda familiar de grande parte dos moradores de periferias resulta de trabalho informal e que o micro empreendedor não tem estrutura financeira para bancar quatro meses de comércio fechado. Em muitos casos o desespero bateu à porta com menos de um mês, junto com as contas que não foram incluídas nas medidas de isolamento. Outro fator determinante está relacionado à própria rotina do morador de favela, que nunca teve o direito de atentar-se para as preocupações que o cercam. As pessoas acusadas de irresponsáveis são as mesmas que precisam encontrar uma rota de fuga para chegar ao trabalho quando o morro está em guerra, para não correr o risco de perder o emprego; são as mesmas que enfrentam correnteza de água com esgoto em dias de chuva forte para honrar seus compromissos; são as mesmas que convivem com o cheiro de vala que corre aberta próxima as suas casas e com a visita indesejável de roedores; são as mesmas que velam o sono dos filhos sabendo que a sua casa está em área de risco de desabamento.

Situações com potencial de morte é uma constante na vida das famílias mais vulneráveis na favela. A Covid-19 representa mais uma preocupação para quem aprendeu a ignorar o medo na luta pela sobrevivência e que, infelizmente, vai assimilar a epidemia como outros problemas cotidianos da periferia naturalizando os riscos existentes.

Por Cleber Araújo
Foto: Exame.com

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