Será que “a favela é potência”?!

Será que de fato “a favela venceu” ou “a favela é potência” como está sendo propagado?


Recentemente o uso de tais expressões ficou popularizado, principalmente, nas redes
sociais por meio de influenciadores digitais que emergiram de regiões periféricas. É
importante exaltar os valores e as conquistas da população favelada, mas é preciso tomar
cuidado para não glamourizar a realidade precarizada em que está submetida a maioria das
pessoas que residem nessas regiões.

Segundo o estudo estatísticas de gênero do IBGE, Mulheres pretas e pardas são mais
afetadas pelas desigualdades na educação, no mercado de trabalho, na renda e na
representatividade política. Inclusive, esse mesmo grupo representa a maior parte de
vítimas de homicídios contra mulheres praticados fora do domicílio e têm o maior percentual
de pessoas em situação de pobreza.

É possível deduzir que muitas dessas mulheres resistem contra toda forma de opressão
entre becos e vielas das favelas brasileiras. Nesse contexto, os dados divulgados pelo IBGE
no Dia Internacional da Mulher (08/03/2024) propiciam uma leitura que diverge da afirmação
que a favela venceu – já que as mazelas sociais persistem em fazer vítimas nesses
territórios, apesar das conquistas alcançadas através das mobilizações comunitárias nas
últimas cinco décadas.

Conquistas comunitárias que ajudaram a catalisar todo o potencial existente nas periferias,
sobretudo, no âmbito cultural e econômico que começam a ser disputados pelo mercado e
politicamente. Mas isso não faz da favela uma potência como um ato em plenitude,
justamente pela ausência de políticas públicas que possibilitem o desenvolvimento das
comunidades em diferentes segmentos sociais.

É de suma importância reconhecer que a favela tem potencial para estar integrada na
malha urbana como parte essencial da cidade. No entanto, para falar que favela é potência,
temos que fazer a analogia filosófica da semente que é uma árvore em potência, que
precisa vivenciar o seu processo de transformação.

Texto: Cleber Araujo
Foto: Fernando Frazão / Agência Brasil

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